Gestão de Riscos

Five Whys e Ishikawa no PGR: 8 controles para evitar a causa aparente

Five Whys aprofunda uma cadeia causal e Ishikawa amplia o campo de análise; juntos, eles transformam investigação no PGR em controles verificáveis.

Por 10 min de leitura atualizado

Principais conclusões

  1. 01Delimite o evento com tarefa, local, horário, condição e barreira esperada antes de abrir qualquer diagrama causal.
  2. 02Separe causa aparente de condição de exposição para não transformar uma falha de sistema em treinamento genérico.
  3. 03Combine Ishikawa para ampliar hipóteses e Five Whys para aprofundar os ramos com maior potencial de exposição.
  4. 04Converta cada causa validada em controle, responsável, prazo e evidência de eficácia no campo.
  5. 05Atualize inventário, avaliação, procedimentos e comunicação do PGR depois de fechar o aprendizado da investigação.

Five Whys e Ishikawa são métodos complementares para investigar causas no PGR: o primeiro aprofunda uma cadeia causal e o segundo amplia o campo de análise antes de escolher controles. Aplicados em 8 controles, eles ajudam a separar causa aparente, condição de exposição, falha de barreira e decisão de gestão.

Uma investigação que termina em “falta de atenção” explica pouco e protege menos. Este guia mostra como transformar uma ocorrência, quase-acidente ou mudança de processo em decisão verificável, sem transformar a ferramenta em ritual de preenchimento.

1. Quando usar Five Whys e Ishikawa no PGR?

Five Whys e Ishikawa devem ser usados quando a equipe precisa explicar por que uma barreira falhou, não apenas registrar que um evento ocorreu. O Five Whys aprofunda uma linha causal; o Ishikawa organiza pelo menos 6 famílias de fatores, como método, máquina, mão de obra, material, medida e meio ambiente.

A escolha é especialmente útil após um quase-acidente, uma falha repetida ou uma mudança que alterou a exposição. O erro é começar pela técnica antes de delimitar o evento: sem data, tarefa, condição e consequência plausível, qualquer diagrama vira opinião organizada.

Como Andreza Araujo defende em Sorte ou Capacidade, não se trata de assumir riscos, e sim de administrá-los com método. O PGR ganha valor quando a análise termina em uma barreira aplicada, um responsável nomeado e uma evidência de eficácia.

A ISO 31000 orienta que a gestão de riscos seja estruturada, integrada e baseada na melhor informação disponível. No campo, isso significa registrar o que era conhecido no momento e distinguir fato observado de hipótese.

2. Controle 1: delimite o evento antes de procurar causas

O primeiro controle é descrever o evento em uma frase verificável, com tarefa, local, horário, condição e resultado. Uma boa formulação responde a 5 perguntas: o que aconteceu, onde, quando, com quem, e qual barreira deveria ter impedido ou reduzido a exposição. Esse recorte evita investigar um rótulo e direciona a equipe para uma decisão concreta.

Evite enunciados como “o operador se distraiu” ou “houve falha humana”. Eles já contêm uma conclusão e fecham a investigação antes de começar. Prefira: “às 14h20, durante a transferência de uma carga de 320 kg, a cinta deslizou e a carga ficou suspensa sem isolamento da área”.

Em 25+ anos de atuação em EHS, Andreza Araujo observa que a qualidade da decisão depende da qualidade da pergunta inicial. Se o evento estiver mal delimitado, os 5 porquês apenas repetirão a primeira impressão da equipe.

Registre também 3 fontes de evidência: observação direta, entrevista e documento operacional. A Fundacentro recomenda que a prevenção seja conectada às condições reais de trabalho, e não apenas ao formulário preenchido depois do evento.

3. Controle 2: separe causa aparente de condição de exposição

Causa aparente é o comportamento ou defeito mais visível; condição de exposição é o conjunto que tornou esse resultado possível. Separar os dois evita que a investigação termine em treinamento genérico quando o risco nasceu de pressão de prazo, ferramenta inadequada, layout, manutenção ou decisão de supervisão. A distinção mantém a análise aberta até que as barreiras sejam verificadas.

Use uma matriz de 4 colunas: fato, hipótese, evidência necessária e controle possível. “Não usou luva” é fato se houver evidência; “não sabia do risco” é hipótese até ser confrontada com treinamento, instrução, supervisão e condições da tarefa.

O artigo sobre matriz de risco no PGR ajuda a evitar que a classificação substitua a decisão. A nota de risco pode priorizar a análise, mas não prova que a barreira existe ou funciona.

Faça uma pergunta de contraprova: “se outra pessoa igualmente treinada executasse a tarefa, a condição ainda poderia produzir o evento?”. Se a resposta for sim, há uma condição de sistema que precisa aparecer no Ishikawa.

4. Controle 3: construa o Ishikawa sem preencher categorias por obrigação

O Ishikawa é útil quando amplia o campo de investigação antes da escolha de controles; ele não exige que todas as 6 categorias tenham causas artificiais. O diagrama deve conter apenas fatores ligados ao evento por evidência, observação ou hipótese explicitamente marcada. Assim, a ferramenta organiza incerteza sem fabricar explicações para preencher espaço.

Comece pelo efeito à direita e abra ramos para método, equipamento, pessoas, material, medição e ambiente. Em uma tarefa de bloqueio e etiquetagem, “procedimento genérico”, “cadeado incompatível”, “ponto de energia não identificado”, “pressão de retomada”, “ausência de teste” e “iluminação insuficiente” podem ser ramos distintos.

Como Andreza Araujo afirma em Diagnóstico de Cultura de Segurança, conformidade documental não basta quando o trabalho real continua sem proteção. Por isso, cada ramo precisa responder a uma pergunta operacional: o que pode ser observado, alterado ou verificado no próximo turno?

Evite o diagrama “árvore de Natal”, com dezenas de causas sem dono. Limite a primeira rodada a 3 evidências por ramo e marque as lacunas que exigem entrevista, teste ou consulta documental.

5. Controle 4: aplique os 5 porquês sem forçar uma causa única

Os 5 porquês são uma sequência de perguntas que aprofunda uma causa específica; o número 5 é uma referência de exploração, não uma meta mecânica. Pare quando a resposta chegar a uma condição que a organização consegue modificar e verificar. Uma cadeia curta e comprovada vale mais do que 5 respostas especulativas.

Exemplo: a carga caiu porque a cinta deslizou; deslizou porque o ponto de amarração era inadequado; era inadequado porque a instrução não distinguia cargas assimétricas; a instrução não distinguia porque a mudança de equipamento não acionou revisão; a revisão não ocorreu porque o processo de MOC não tinha dono.

O risco de uma cadeia única é esconder causas simultâneas. Use o Ishikawa preventivo no PGR como mapa de verificação e o Five Whys como aprofundamento de cada ramo relevante.

Se a equipe chegar a “a pessoa não prestou atenção”, faça pelo menos 2 perguntas adicionais: que condição exigia atenção extraordinária e que barreira deveria reduzir a dependência de atenção? A resposta não absolve o comportamento; ela evita tratá-lo como explicação final.

6. Controle 5: valide cada causa com evidência de campo

Uma causa só deve entrar no plano de ação quando houver evidência suficiente para orientar uma mudança. A validação mínima combina 2 fontes independentes, como entrevista e observação, registro e teste funcional, ou procedimento e verificação no local. O objetivo é reduzir o risco de uma hipótese conveniente virar prioridade sem lastro.

Use quatro rótulos: confirmado, provável, não confirmado e descartado. Essa disciplina impede que uma hipótese conveniente seja apresentada como fato e permite voltar ao ponto quando surgir nova informação.

O ILO define segurança e saúde no trabalho como parte de um ambiente seguro e saudável. A atribuição importa porque a investigação precisa considerar organização, equipamento e contexto, não apenas a conduta final do trabalhador.

Para cada causa provável, registre 1 evidência que falta, 1 pessoa responsável por obtê-la e 1 prazo. Um prazo de 24 horas é adequado para risco crítico já exposto; uma análise de tendência pode usar 30 dias, desde que a proteção provisória seja imediata.

7. Controle 6: converta causas em controles pela hierarquia

O plano de ação deve priorizar eliminação, substituição e controles de engenharia antes de depender de procedimento, treinamento ou EPI. A hierarquia não é uma lista para marcar; é um teste contra a resposta automática de “treinar novamente”. A pergunta central é quanto da proteção permanece quando a tarefa ocorre sob pressa, fadiga ou mudança de condição.

Para cada causa, escreva 3 alternativas: uma que remova a exposição, uma que reduza a energia ou contato, e uma que organize a execução. Depois compare eficácia, dependência humana, tempo de implantação e risco residual.

Como Andreza Araujo registra no acervo editorial, EPI é linha de defesa secundária: reduz o dano, mas não evita sozinho o acidente. A decisão madura não elimina o EPI quando ele é necessário; evita que ele seja tratado como primeira e única barreira.

O artigo sobre substituição de controles fracos no PGR pode ser usado como sequência de implantação. O teste é simples: se o controle depende de memória perfeita em uma tarefa sob pressão, ele precisa de reforço físico, automático ou de engenharia.

8. Controle 7: atribua dono, prazo e critério de eficácia

Uma ação corretiva só está completa quando tem 1 dono com autoridade, 1 prazo e 1 critério observável de eficácia. “Treinar a equipe” não é plano suficiente: falta dizer quem executa, qual comportamento muda, em que prazo e como a operação demonstrará que a barreira funciona. A autoria precisa estar ligada à capacidade real de decidir e mobilizar recursos.

Use uma ficha com 5 campos: causa, controle, responsável, prazo e evidência. Para risco crítico, defina uma proteção provisória no mesmo turno; para melhoria estrutural, registre marcos de 7, 30 e 90 dias.

Em projetos conduzidos com 250+ empresas, Andreza Araujo ancora a transformação em decisões que chegam ao campo. O responsável não é o culpado pelo evento; é quem possui alçada para remover a condição, mobilizar recurso e provar o fechamento.

O critério de eficácia deve ser diferente do critério de conclusão. Instalar uma proteção é conclusão; observar 10 execuções sem exposição indevida, com registro de desvios e resposta, é evidência de eficácia.

9. Controle 8: feche o ciclo e atualize o PGR

O ciclo termina quando o aprendizado altera o inventário de riscos, o procedimento, o treinamento, a barreira ou a decisão de gestão. Se a análise fica arquivada no relatório do evento, a organização preserva a memória do acidente, mas não necessariamente reduz sua repetição. Fechar o documento sem mudar a rotina é apenas encerrar a tarefa administrativa.

Revise 4 artefatos: inventário, avaliação, controles e comunicação. Pergunte se o perigo já existia, se a exposição mudou, se a barreira foi criada ou se uma nova tarefa exige revisão de método.

Uma auditoria de 90 dias deve verificar a implantação e a eficácia, enquanto uma revisão imediata deve ocorrer quando o evento revelar risco grave ou mudança relevante. A HSE reporta que liderança visível e gestão sistemática são componentes centrais do desempenho em saúde e segurança.

O fechamento precisa voltar para quem reportou. Sem retorno em até 72 horas para a decisão inicial, a equipe aprende que investigar é produzir papel. Com retorno, o reporte se torna uma entrada confiável para o PGR.

Comparação: Five Whys ou Ishikawa?

Five Whys e Ishikawa cumprem funções diferentes: um aprofunda uma cadeia causal e o outro amplia as hipóteses antes da priorização. A escolha correta depende do tipo de incerteza, da quantidade de causas possíveis e da decisão que precisa ser tomada. A combinação é mais segura quando o evento tem múltiplos fatores e uma única explicação parece conveniente demais.

CritérioFive WhysIshikawa
Melhor usoAprofundar uma causa específicaExplorar 6 famílias de fatores
Risco de uso ruimForçar uma causa únicaListar hipóteses sem evidência
Saída mínimaCadeia causal validadaRamos priorizados para verificação
Prazo de aplicação30–60 minutos após delimitar o evento60–90 minutos com equipe multidisciplinar
Critério de qualidadeChegar a uma condição modificávelConectar causas a controles verificáveis

Na prática, use Ishikawa para abrir o campo e Five Whys para aprofundar os 2 ou 3 ramos com maior potencial de exposição. A combinação reduz o risco de estreitar cedo demais a investigação e transforma o resultado em decisão.

Conclusão: a ferramenta só vale quando muda o controle

Five Whys e Ishikawa não substituem julgamento técnico, escuta do trabalho real ou autoridade de decisão; eles organizam a investigação para que a causa aparente não encerre a conversa. O resultado esperado é 1 controle implantado, 1 dono, 1 prazo e 1 evidência de eficácia. O valor está na mudança observável, não na aparência completa do diagrama.

Em vez de celebrar um diagrama completo, verifique se a exposição caiu, se a barreira ficou menos dependente de atenção e se a equipe recebeu retorno. Para aprofundar a aplicação no PGR, consulte a auditoria de controles antes da liberação e conheça a atuação da Andreza Araujo.

Cada semana sem fechar causas, responsáveis e eficácia mantém o mesmo risco disponível para o próximo turno, mesmo que o relatório anterior esteja assinado.

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Perguntas frequentes

Five Whys e Ishikawa são a mesma ferramenta?

Não. Five Whys aprofunda uma cadeia causal por perguntas sucessivas, enquanto Ishikawa organiza hipóteses em famílias de fatores. Eles funcionam melhor juntos: Ishikawa abre o campo e Five Whys aprofunda os ramos prioritários.

Quantos porquês devem ser feitos?

O número 5 é uma referência, não uma obrigação. Pare quando a resposta chegar a uma condição modificável e verificável pela organização. Se a equipe chegar a “falta de atenção”, ainda precisa investigar contexto, barreiras e decisões.

Como evitar culpar o operador na investigação?

Descreva o comportamento como fato, mas procure as condições que tornaram a escolha provável: pressão, ferramenta, procedimento, treinamento, supervisão, layout e gestão de mudança. A investigação deve atribuir donos a controles, não apenas culpa a pessoas.

Quando atualizar o PGR depois da análise?

Atualize o PGR quando o evento revelar perigo novo, exposição diferente, barreira insuficiente ou mudança de processo. Defina proteção provisória no mesmo turno para risco crítico e verifique a eficácia em ciclos como 7, 30 e 90 dias.

Como saber se a causa foi realmente validada?

Use pelo menos 2 fontes independentes, como observação e entrevista, registro e teste funcional ou procedimento e verificação local. Classifique a causa como confirmada, provável, não confirmada ou descartada e registre a evidência que falta.

Sobre o autor

Andreza Araújo

Especialista em Segurança do Trabalho

Andreza Araújo atua em segurança do trabalho, cultura de segurança e comportamento seguro, com foco em liderança, prevenção e melhoria contínua. Engenheira civil e engenheira de segurança do trabalho pela Unicamp, mestre em Diplomacia Ambiental pela Universidade de Genebra.

  • Engenharia Civil — Unicamp
  • Engenharia de Segurança do Trabalho — Unicamp
  • Mestre em Diplomacia Ambiental — Universidade de Genebra

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