Indicadores e Métricas

Taxa de quase-acidente explicada: como medir e usar

A taxa de quase-acidente mede eventos precursores em relação às horas trabalhadas e funciona como indicador leading que antecipa a lesão grave antes que ela aconteça.

Por 3 min de leitura atualizado
painel de métricas representando taxa de quase acidente explicada como medir e usar — Taxa de quase-acidente explicada: como

Principais conclusões

  1. 01Calcule a taxa de quase-acidente multiplicando os quase-acidentes reportados por 1.000.000 e dividindo pelas horas trabalhadas, na mesma escala que sustenta o TRIR.
  2. 02Leia um near-miss ratio próximo de 1 para 1 como sinal de subnotificação, porque a pirâmide de Bird prevê cerca de 600 precursores para cada evento grave.
  3. 03Trate o aumento de quase-acidentes reportados como saúde da cultura, e aprofunde a crítica de indicadores leading em Muito Além do Zero, de Andreza Araujo.

A taxa de quase-acidente (near-miss, no inglês) mede quantos eventos que quase viraram lesão uma operação registra em relação às horas trabalhadas ou aos acidentes já consumados. Funciona como indicador leading, porque antecipa o risco em vez de apenas contar a lesão depois que ela ocorre.

O que é a taxa de quase-acidente

A taxa de quase-acidente é o número que transforma o volume de quase-acidentes reportados em um valor comparável entre turnos, plantas e períodos, conforme o espírito de prevenção do PGR previsto na NR-01. Um quase-acidente é o evento que poderia ter gerado lesão, doença ou dano, embora nenhum dano tenha se concretizado.

A OSHA, agência norte-americana de segurança, define o quase-acidente como oportunidade de prevenção que deve ser registrada antes que a mesma falha retorne com consequência. A pirâmide proposta por Herbert Heinrich em 1931 já estimava até 300 quase-acidentes para cada lesão grave, o que mostra a base larga do risco. Como Andreza Araujo escreve em Muito Além do Zero, indicadores reativos olham apenas pelo retrovisor, já que revelam a consequência e não a causa, e o quase-acidente se diferencia porque mede o precursor que ainda dá tempo de corrigir.

Como calcular a taxa de quase-acidente

A taxa de quase-acidente é calculada multiplicando o total de quase-acidentes reportados por uma base de horas, em geral 1.000.000, e dividindo pelas horas-homem trabalhadas no período. A fórmula espelha o cálculo do TRIR, que adota a base de 200.000 horas, o que permite comparar a frequência de precursores e a frequência de lesões na mesma escala.

Existe ainda o near-miss ratio, que é a razão entre quase-acidentes reportados e acidentes registráveis. Quando essa razão fica próxima de 1 para 1, o sinal mais provável não é segurança, e sim subnotificação, uma vez que toda lesão real costuma ser precedida por dezenas de eventos que ninguém anotou.

Near-miss ratio e a pirâmide de Heinrich e Bird

A pirâmide de Heinrich, publicada em 1931, propôs a proporção de 1 lesão grave para 29 lesões leves e 300 quase-acidentes sem lesão. Frank Bird revisou o modelo em 1969 e encontrou a relação de 1 evento grave para 10 lesões leves, 30 danos à propriedade e 600 quase-acidentes.

Essas proporções, cuja função é mostrar a base larga do risco, explicam por que a taxa de quase-acidente é tão útil, porque cada precursor reportado é uma chance de interromper a cadeia antes do topo da pirâmide. A HSE, autoridade britânica de segurança, trata o reporte consistente de quase-acidentes como sinal de maturidade da gestão, onde o silêncio dos números costuma esconder a falha que ainda não foi vista.

Como usar o indicador na prática

A taxa de quase-acidente serve para decidir onde agir antes do acidente, e não para punir quem reporta. Um aumento no número de quase-acidentes registrados, ainda que assuste o painel, costuma indicar que a equipe confia mais para falar, e não que a operação piorou. A Fundacentro recomenda o registro sistemático de eventos precursores como parte da prevenção exigida pelo PGR da NR-01.

Para ler o indicador sem se enganar, vale cruzá-lo com a taxa de reporte e observar a tendência ao longo dos meses, porque uma operação madura pode reportar 10 ou mais quase-acidentes para cada acidente registrável, enquanto a operação que esconde o número exibe uma pirâmide artificialmente estreita.

Quando a taxa de quase-acidente revela evento de alto potencial, o próximo passo é definir governança de apuração. Um comitê de investigação evita que o indicador vire apenas número e ajuda a transformar reporte em barreira corrigida.

Conclusão

A taxa de quase-acidente mede o risco enquanto ele ainda é reversível, desde que a liderança leia a base larga de até 300 precursores como oportunidade de agir, e não o topo da pirâmide como resultado. Para aprofundar a leitura crítica dos indicadores leading e lagging, o livro Muito Além do Zero, de Andreza Araujo, está disponível na loja oficial.

Quando o quase-acidente aponta SIF potencial, ele deve alimentar o backlog de ações críticas para que a barreira seja corrigida antes da recorrência.

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Perguntas frequentes

O que é a taxa de quase-acidente?

A taxa de quase-acidente é o indicador que mede quantos eventos que quase causaram lesão, doença ou dano uma operação registra em relação às horas trabalhadas ou aos acidentes já consumados. Por captar o precursor antes da lesão, ela funciona como indicador leading, ao contrário do TRIR e do LTIFR, que só contam o dano depois que ele acontece. Quanto mais consistente o reporte, mais cedo a liderança enxerga a falha latente e consegue agir sobre a base da pirâmide de risco, e não apenas sobre o topo.

Como calcular a taxa de quase-acidente?

Multiplique o total de quase-acidentes reportados no período por uma base de horas, em geral 1.000.000, e divida pelas horas-homem trabalhadas. O cálculo espelha o TRIR, que usa a base de 200.000 horas, e permite comparar plantas de tamanhos diferentes na mesma escala. Vale acompanhar também o near-miss ratio, a razão entre quase-acidentes e acidentes registráveis, porque uma razão próxima de 1 para 1 costuma denunciar subnotificação, já que toda lesão real é precedida por dezenas de precursores que ninguém anotou.

Taxa de quase-acidente é indicador leading ou lagging?

É um indicador leading, porque mede o evento precursor que ainda é reversível, e não a lesão já consumada. Como Andreza Araujo defende em Muito Além do Zero, indicadores reativos olham apenas pelo retrovisor, ao passo que o quase-acidente aponta para a frente e mostra onde a barreira está prestes a falhar. Um aumento no número de quase-acidentes reportados quase sempre indica mais confiança da equipe para falar, e não piora da operação, motivo pelo qual punir quem reporta destrói o próprio indicador.

Sobre o autor

Andreza Araújo

Especialista em Segurança do Trabalho

Andreza Araújo atua em segurança do trabalho, cultura de segurança e comportamento seguro, com foco em liderança, prevenção e melhoria contínua. Engenheira civil e engenheira de segurança do trabalho pela Unicamp, mestre em Diplomacia Ambiental pela Universidade de Genebra.

  • Engenharia Civil — Unicamp
  • Engenharia de Segurança do Trabalho — Unicamp
  • Mestre em Diplomacia Ambiental — Universidade de Genebra

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